Os efeitos da dieta vegana para o clima deixaram de ser uma pauta restrita ao ativismo ambiental e entraram na esfera da ciência aplicada, das políticas públicas e, cada vez mais, da mesa das pessoas. O motivo é direto: a alimentação é responsável por uma parcela significativa das emissões globais, do uso de água e do desmatamento, e mudar o que colocamos no prato pode reduzir impactos mais rapidamente do que mudanças estruturais em outros setores.
Um novo estudo (https://doi.org/10.1007/978-3-031-97648-3_1) conduzido na Itália traz números que reabrem o debate: o que acontece quando uma população inteira substitui apenas 1, 2 ou 3 dias da dieta mediterrânea por dias 100% veganos? A resposta não deixa espaço para ilusões ingênuas, mas também desmonta o argumento de que “pequenas mudanças não fazem diferença”.
A pesquisa mostra reduções claras e progressivas nas emissões de CO₂, no uso do solo e na pegada hídrica, sinalizando que mesmo ajustes parciais na dieta já movem o ponteiro ambiental.
A Pesquisa
Quem fez o estudo
O trabalho foi conduzido por Maria Danese e Marilisa Biscione, pesquisadoras do CNR-ISPC (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália).
Onde foi publicado
O capítulo integra os ICCSA 2025 Workshops (Springer, 2026).
O que foi analisado
O estudo comparou quatro cenários dietéticos para adultos que consomem 2000 kcal/dia:
Dieta mediterrânea completa (MED)
Mediterrânea + 1 dia vegano por semana
Mediterrânea + 2 dias veganos por semana
Mediterrânea + 3 dias veganos por semana
Dados utilizados
Distribuição da população italiana (ISTAT 2021)
Diretrizes nutricionais para dieta mediterrânea e vegana
Fatores de emissão e impacto ambiental por categoria de alimento
GHGE (kgCO₂/kg)
Uso de solo (m²·ano/kg)
Pegada hídrica (m³/ton)
Por que este estudo importa
Ele não trabalha com casos individuais, mapeia a distribuição espacial do impacto climático em todos os municípios italianos, simulando o efeito de políticas populacionais como “Segunda Sem Carne” ou “Segunda Vegana”.
É um estudo de escala populacional, não de comportamento individual.
Resultados Principais em Números
O achado central é direto:
Quanto mais dias veganos por semana, menor o impacto climático, com quedas progressivas e claramente mensuráveis.
As reduções aparecem em todos os indicadores, mas com intensidades diferentes.
1. Emissões de CO₂ (GHGE)
A queda é a mais expressiva.
1 dia vegano/semana → redução significativa
2 dias → queda mais acentuada
3 dias → o impacto visual nos mapas praticamente “desvermelhece” o país
As regiões mais populosas, Lombardia, Emilia-Romagna e Veneto, apresentaram os níveis absolutos mais altos, mas também as maiores reduções quando os dias veganos aumentam.
Os autores deixam claro que o efeito é proporcional ao abandono de produtos de origem animal, especialmente carne e laticínios, que concentram os maiores fatores de emissão (até 17,1 kg CO₂/kg no caso das carnes).
2. Uso do solo (Land Use)
Também reduz de forma consistente, embora em ritmo um pouco menor que as emissões.
Alimentos de origem animal, especialmente carne e laticínios, ampliam o impacto porque demandam:
áreas de pastagem
produção de ração
manejo mais intensivo
Já os dias veganos incluem mais legumes, grãos e leites vegetais, cuja relação área/proteína é muito mais eficiente.
3. Pegada hídrica (Water Footprint)
Aqui a redução existe, mas é a menos sensível entre os indicadores.
Isso ocorre porque:
certas culturas vegetais (como nozes) também têm alta demanda hídrica
a substituição parcial não elimina todos os laticínios e carnes
fatores locais de irrigação influenciam mais do que as emissões
Ainda assim, há queda, e ela se intensifica à medida que o número de dias veganos aumenta.
Tabela-resumo
Cenário semanal
GHGE
Uso do solo
Pegada hídrica
Tendência
Mediterrânea completa
Maior impacto
Maior
Maior
—
+ 1 dia vegano
↓ moderado
↓ leve
↓ leve
Primeiro salto
+ 2 dias veganos
↓ significativo
↓ moderado
↓ moderado
Redução clara
+ 3 dias veganos
↓ forte
↓ forte
↓ moderado
Melhor cenário
Setas indicam tendência geral, pois os valores aparecem distribuídos regionalmente no estudo.
Por Que Isso Importa
1. Alimentação é política, e impacto climático é mensurável
O estudo desmonta a ideia de que “apenas mudanças estruturais importam”. Políticas de incentivo a dias veganos geram impacto ambiental detectável no mapa.
2. Para a saúde, é um ganho extra
Menos carnes processadas, mais leguminosas e fibras — o combo aparece em centenas de estudos como protetor cardiovascular e metabólico.
3. Para o clima, é um atalho
Trocas alimentares rápidas reduzem emissões imediatamente, sem depender de infraestrutura ou tecnologia.
4. Para o cotidiano, é simples
Adicionar leguminosas, cereais integrais e leites vegetais por 1–3 dias não exige revoluções culinárias.
5. Para políticas públicas, é estratégico
A pesquisa reforça iniciativas como:
Segunda Sem Carne
campanhas institucionais por dietas mais vegetais
reformulação de diretrizes nacionais
Aplicações Práticas
1. Estratégias alimentares simples
Adote 1 a 3 dias totalmente vegetais por semana. O estudo mostra que já é suficiente para reduzir as emissões.
Substitua carnes por:
feijões, lentilhas, grão-de-bico
tofu ou produtos de soja
ervilha e outras proteínas vegetais
Troque laticínios por:
bebidas vegetais (soja, aveia, amêndoas)
iogurtes vegetais
queijos vegetais simples (de castanhas, tofu etc.)
2. Receitas simples (coerentes com o estudo)
Grão-de-bico ensopado com páprica e legumes
Massa com molho de lentilhas
Risoto de cogumelos
Tofu grelhado com ervas mediterrâneas
Sopa de feijão branco com azeite e alecrim
3. Planejamento semanal híbrido
2ª feira → vegana
4ª feira → mediterrânea
6ª feira → vegana
fim de semana → livre (preferencialmente vegetal)
Limitações e O que Ainda Não Sabemos
O estudo é sólido, mas honesto nas lacunas:
Trabalha com dietas teóricas, não consumo real. Na prática, come-se mais carne que o recomendado.
Não considera:
já veganos na população
impactos regionais do transporte de alimentos
produção local × importada
diferenças socioeconômicas e culturais
Pegada hídrica depende fortemente de clima e irrigação, um alimento vegano plantado em área árida pode ter impacto maior.
Não inclui perdas e desperdício, que alteram muito a conta.
Não simula efeitos em longo prazo, apenas o impacto direto da substituição semanal.
Ainda assim, a consistência dos resultados torna o estudo relevante e aplicável.
O estudo italiano traz um recado pragmático, e sem glamour: mudar um dia por semana já muda o impacto climático de um país inteiro.
E à medida que esses dias aumentam, as emissões despencam, o uso do solo diminui e a pegada hídrica acompanha, ainda que em ritmo mais modesto.
Para quem busca hábitos mais sustentáveis sem abandonar a culinária mediterrânea, o caminho é claro: hibridizar a semana com dias veganos.
Escolha um dia desta semana para ser 100% vegetal. Depois, se fizer sentido, transforme dois. O estudo mostra que é aí que o impacto começa a escalar.
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