Prato azul com salada vegana dentro, folhas,tomate, pepino, croutons. Ao lado uma tabua de queijo, tomate e cebola em cima de uma mesa de madeira escura.

Efeitos da dieta vegana para o clima: o que a ciência italiana descobriu

Prato azul com salada vegana dentro, folhas,tomate, pepino, croutons. Ao lado uma tabua de queijo, tomate e cebola em cima de uma mesa de madeira escura.
Foto de Jez Timms na Unsplash

Os efeitos da dieta vegana para o clima deixaram de ser uma pauta restrita ao ativismo ambiental e entraram na esfera da ciência aplicada, das políticas públicas e, cada vez mais, da mesa das pessoas. O motivo é direto: a alimentação é responsável por uma parcela significativa das emissões globais, do uso de água e do desmatamento, e mudar o que colocamos no prato pode reduzir impactos mais rapidamente do que mudanças estruturais em outros setores.

Um novo estudo (https://doi.org/10.1007/978-3-031-97648-3_1) conduzido na Itália traz números que reabrem o debate: o que acontece quando uma população inteira substitui apenas 1, 2 ou 3 dias da dieta mediterrânea por dias 100% veganos?
A resposta não deixa espaço para ilusões ingênuas, mas também desmonta o argumento de que “pequenas mudanças não fazem diferença”.

A pesquisa mostra reduções claras e progressivas nas emissões de CO₂, no uso do solo e na pegada hídrica, sinalizando que mesmo ajustes parciais na dieta já movem o ponteiro ambiental.

Mapa da itália com o comparativo realizado na pesquisa entre a dieta vegana e mediterrânea sob o GHGE (kgCO₂/kg)

A Pesquisa

Quem fez o estudo

O trabalho foi conduzido por Maria Danese e Marilisa Biscione, pesquisadoras do CNR-ISPC (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália).

Onde foi publicado

O capítulo integra os ICCSA 2025 Workshops (Springer, 2026).

O que foi analisado

O estudo comparou quatro cenários dietéticos para adultos que consomem 2000 kcal/dia:

  1. Dieta mediterrânea completa (MED)
  2. Mediterrânea + 1 dia vegano por semana
  3. Mediterrânea + 2 dias veganos por semana
  4. Mediterrânea + 3 dias veganos por semana

Dados utilizados

  • Distribuição da população italiana (ISTAT 2021)
  • Diretrizes nutricionais para dieta mediterrânea e vegana
  • Fatores de emissão e impacto ambiental por categoria de alimento
    • GHGE (kgCO₂/kg)
    • Uso de solo (m²·ano/kg)
    • Pegada hídrica (m³/ton)

Por que este estudo importa

Ele não trabalha com casos individuais, mapeia a distribuição espacial do impacto climático em todos os municípios italianos, simulando o efeito de políticas populacionais como “Segunda Sem Carne” ou “Segunda Vegana”.

É um estudo de escala populacional, não de comportamento individual.


Resultados Principais em Números

O achado central é direto:

Quanto mais dias veganos por semana, menor o impacto climático, com quedas progressivas e claramente mensuráveis.

As reduções aparecem em todos os indicadores, mas com intensidades diferentes.


1. Emissões de CO₂ (GHGE)

A queda é a mais expressiva.

  • 1 dia vegano/semana → redução significativa
  • 2 dias → queda mais acentuada
  • 3 dias → o impacto visual nos mapas praticamente “desvermelhece” o país

As regiões mais populosas, Lombardia, Emilia-Romagna e Veneto, apresentaram os níveis absolutos mais altos, mas também as maiores reduções quando os dias veganos aumentam.

Os autores deixam claro que o efeito é proporcional ao abandono de produtos de origem animal, especialmente carne e laticínios, que concentram os maiores fatores de emissão (até 17,1 kg CO₂/kg no caso das carnes).


2. Uso do solo (Land Use)

Também reduz de forma consistente, embora em ritmo um pouco menor que as emissões.

Alimentos de origem animal, especialmente carne e laticínios, ampliam o impacto porque demandam:

  • áreas de pastagem
  • produção de ração
  • manejo mais intensivo

Já os dias veganos incluem mais legumes, grãos e leites vegetais, cuja relação área/proteína é muito mais eficiente.


3. Pegada hídrica (Water Footprint)

Aqui a redução existe, mas é a menos sensível entre os indicadores.

Isso ocorre porque:

  • certas culturas vegetais (como nozes) também têm alta demanda hídrica
  • a substituição parcial não elimina todos os laticínios e carnes
  • fatores locais de irrigação influenciam mais do que as emissões

Ainda assim, há queda, e ela se intensifica à medida que o número de dias veganos aumenta.


Tabela-resumo

Cenário semanalGHGEUso do soloPegada hídricaTendência
Mediterrânea completaMaior impactoMaiorMaior
+ 1 dia vegano↓ moderado↓ leve↓ levePrimeiro salto
+ 2 dias veganos↓ significativo↓ moderado↓ moderadoRedução clara
+ 3 dias veganos↓ forte↓ forte↓ moderadoMelhor cenário

Setas indicam tendência geral, pois os valores aparecem distribuídos regionalmente no estudo.


Por Que Isso Importa

1. Alimentação é política, e impacto climático é mensurável

O estudo desmonta a ideia de que “apenas mudanças estruturais importam”.
Políticas de incentivo a dias veganos geram impacto ambiental detectável no mapa.

2. Para a saúde, é um ganho extra

Menos carnes processadas, mais leguminosas e fibras — o combo aparece em centenas de estudos como protetor cardiovascular e metabólico.

3. Para o clima, é um atalho

Trocas alimentares rápidas reduzem emissões imediatamente, sem depender de infraestrutura ou tecnologia.

4. Para o cotidiano, é simples

Adicionar leguminosas, cereais integrais e leites vegetais por 1–3 dias não exige revoluções culinárias.

5. Para políticas públicas, é estratégico

A pesquisa reforça iniciativas como:

  • Segunda Sem Carne
  • campanhas institucionais por dietas mais vegetais
  • reformulação de diretrizes nacionais

Aplicações Práticas

1. Estratégias alimentares simples

  • Adote 1 a 3 dias totalmente vegetais por semana.
    O estudo mostra que já é suficiente para reduzir as emissões.
  • Substitua carnes por:
    • feijões, lentilhas, grão-de-bico
    • tofu ou produtos de soja
    • ervilha e outras proteínas vegetais
  • Troque laticínios por:
    • bebidas vegetais (soja, aveia, amêndoas)
    • iogurtes vegetais
    • queijos vegetais simples (de castanhas, tofu etc.)

2. Receitas simples (coerentes com o estudo)

  • Grão-de-bico ensopado com páprica e legumes
  • Massa com molho de lentilhas
  • Risoto de cogumelos
  • Tofu grelhado com ervas mediterrâneas
  • Sopa de feijão branco com azeite e alecrim

3. Planejamento semanal híbrido

  • 2ª feira → vegana
  • 4ª feira → mediterrânea
  • 6ª feira → vegana
  • fim de semana → livre (preferencialmente vegetal)

Limitações e O que Ainda Não Sabemos

O estudo é sólido, mas honesto nas lacunas:

  1. Trabalha com dietas teóricas, não consumo real.
    Na prática, come-se mais carne que o recomendado.
  2. Não considera:
    • já veganos na população
    • impactos regionais do transporte de alimentos
    • produção local × importada
    • diferenças socioeconômicas e culturais
  3. Pegada hídrica depende fortemente de clima e irrigação,
    um alimento vegano plantado em área árida pode ter impacto maior.
  4. Não inclui perdas e desperdício, que alteram muito a conta.
  5. Não simula efeitos em longo prazo, apenas o impacto direto da substituição semanal.

Ainda assim, a consistência dos resultados torna o estudo relevante e aplicável.


O estudo italiano traz um recado pragmático, e sem glamour:
mudar um dia por semana já muda o impacto climático de um país inteiro.

E à medida que esses dias aumentam, as emissões despencam, o uso do solo diminui e a pegada hídrica acompanha, ainda que em ritmo mais modesto.

Para quem busca hábitos mais sustentáveis sem abandonar a culinária mediterrânea, o caminho é claro: hibridizar a semana com dias veganos.

Escolha um dia desta semana para ser 100% vegetal.
Depois, se fizer sentido, transforme dois. O estudo mostra que é aí que o impacto começa a escalar.

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